Se você já passou algum tempo em um salão de jogos ou em uma sala de colecionador, sabe que existem máquinas que você joga para bater recordes e máquinas que você joga simplesmente porque elas são divertidas demais para serem ignoradas. A Scared Stiff, lançada em 1996 pela Bally (na época sob o guarda-chuva da Midway/Williams), pertence com folga ao segundo grupo. Ela não é apenas uma peça de engenharia; é um espetáculo de comédia de terror, uma cápsula do tempo da cultura B-movie e, possivelmente, uma das interações mais perfeitas entre tema e mecânica já criadas na era de ouro do pinball.
Quando a bola entra em campo, você não está apenas tentando marcar pontos. Você está entrando no mundo de Cassandra Peterson, a eterna Elvira. A Scared Stiff foi a sucessora espiritual da Elvira and the Party Monsters (1989), mas enquanto a primeira era uma máquina sólida da era System 11, esta aqui é uma obra-prima da plataforma WPC-95, trazendo tudo o que a tecnologia da época podia oferecer em termos de som, animações no DMD e brinquedos mecânicos no playfield.
O toque de Midas de Nordman e Freres
Para entender por que a Scared Stiff é tão cultuada, precisamos falar de quem estava por trás das cortinas. O design foi assinado por Dennis Nordman, um cara que entende como ninguém de “flow” (fluxo) e de como criar rampas que dão satisfação ao serem acertadas. Já a arte ficou a cargo de Greg Freres. Essa dupla é quase como o Lennon e McCartney do pinball. Eles conseguiram captar a essência da Elvira: aquele humor de duplo sentido, a estética gótica exagerada e o carisma que atravessa o backglass.
O contexto do lançamento é curioso. Em 1996, o mercado de pinball começava a sentir o cerco apertar diante dos consoles de videogame cada vez mais potentes. A resposta da Bally foi apostar no licenciamento de alto nível e em uma experiência sensorial completa. Eles não queriam apenas que você jogasse; eles queriam que você risse e se sentisse dentro de um filme de terror dos anos 50. E funcionou. Até hoje, a Scared Stiff é uma das máquinas mais procuradas por colecionadores, não apenas pela raridade, mas porque ela é o “party game” definitivo.
Uma estética que salta aos olhos (literalmente)
O que primeiro chama a atenção é o colorido vibrante. O playfield é uma explosão de roxos, laranjas e verdes fluorescentes. Mas a real estrela do show, visualmente falando, é o Spider Spinner localizado no backbox. É um mecanismo interativo onde uma aranha gira e o jogador, ao apertar o botão do flipper, deve pará-la para ganhar prêmios ou ativar modos. É uma solução brilhante que tira o olho do jogador apenas da mesa e o conecta com o gabinete como um todo.
A trilha sonora e as vozes são um capítulo à parte. Ter a própria Cassandra Peterson gravando as falas faz toda a diferença. O deboche dela quando você perde uma bola ou o entusiasmo quando você ativa um Multiball criam uma camada de personalidade que poucas máquinas possuem. Os efeitos sonoros — trovões, gritos, barulhos de monstros — são nítidos e bem distribuídos, ajudando a construir a tensão necessária para o ápice do jogo.
O gameplay e a subida no Stiff-o-Meter
A Scared Stiff não é uma máquina conhecida por ter regras extremamente complexas ou “profundas” como uma Twilight Zone ou uma Star Trek: The Next Generation. E isso é um elogio. Ela é intuitiva. O objetivo principal é completar os Six Tales of Terror (Seis Contos de Terror) para chegar ao modo final. Cada conto é ativado por um elemento diferente do playfield:
- The Monster Lab: Focado nos bumpers, onde você “reanima” o monstro.
- The Crate: Um dos melhores brinquedos do pinball. Uma caixa que treme fisicamente no playfield quando você a atinge. Bata nela o suficiente e ela se abre para o Crate Multiball.
- The Coffin: Localizado no lado esquerdo, onde você trava bolas para outro Multiball.
- Eyes of the Bony Beast: Ativado pelas rampas.
- Night of the Leaping Frogs: Um teste de precisão nos targets.
- Deadhead Targets: Alvos que representam “ex-namorados” da Elvira, um toque clássico do humor da série.
Conforme você completa esses contos, você sobe no Stiff-o-Meter, um medidor localizado no backglass que indica o quão “assustado” você está. O objetivo final é atingir o nível máximo para o Spider Mania, o modo “Wizard” da máquina. O nível de desafio é moderado, o que a torna excelente para jogadores casuais, mas o controle de bola necessário para sequenciar as rampas mantém os veteranos engajados.
O que torna esta máquina especial?
Se você perguntar a um dono de Scared Stiff por que ele não a vende, a resposta provavelmente será sobre a “alma” da máquina. Ela tem acessórios (mods) incríveis, como os dedos de monstro que cobrem os flippers ou as extensões de rampa de osso. Mas o que realmente a diferencia é o equilíbrio. As rampas são suaves, o retorno da bola é justo e o jogo raramente parece punitivo de forma gratuita.
Outro ponto icônico é o Bony Beast, a estrutura de ossos que envolve as rampas superiores. Ela dá uma tridimensionalidade ao playfield que era muito avançada para a época. Comparada a outras máquinas de 1996, como a Tales of the Arabian Nights, a Scared Stiff foca menos em “missões narrativas” e mais na satisfação imediata de cada tiro.
O que você precisa saber se quer uma Scared Stiff
Como pesquisador e entusiasta, recebo muitas perguntas sobre o valor e a manutenção dessa joia da Bally. Aqui estão alguns pontos reais para quem está pensando em entrar no mundo do colecionismo com ela:
- Valor e Raridade: Ela não é uma máquina barata. Devido ao tema forte e ao fato de ser uma das favoritas para decoração de ambientes, o preço subiu muito nos últimos anos. Espere pagar o valor de uma máquina moderna (ou até mais) por um exemplar bem conservado.
- Manutenção: O Spider Spinner no backbox e o mecanismo da Crate (a caixa que treme) são os pontos que exigem mais atenção. A caixa sofre muito impacto constante, então é comum encontrar rachaduras no plástico ou problemas no solenoide de vibração. Nada que uma manutenção preventiva básica não resolva.
- Vale a pena? Se você busca uma máquina para “estudar” regras por meses, talvez ela sature rápido. Mas se você quer uma máquina que todos os seus amigos queiram jogar em uma sexta-feira à noite, não existe opção melhor. Ela é o espírito do pinball clássico em sua forma mais pura e divertida.
O veredito de um apaixonado
A Elvira Scared Stiff é o tipo de máquina que nos lembra por que o pinball sobreviveu à era digital. É a união física de arte, humor e mecânica. Ela não tenta ser séria, ela não tenta ser um simulador de física complexo; ela quer apenas que você se divirta tentando não ser “assustado até a morte”.
Seja pelo estalo seco do solenoide quando a bola entra na caixa, ou pelo comentário sarcástico da Elvira quando você perde um dreno lateral, essa criação da Bally continua sendo uma peça central em qualquer discussão sobre as melhores mesas de todos os tempos. Ela é, sem dúvida, a rainha do Halloween e do nosso salão de jogos.








