Se você já entrou em um fliperama, um boliche ou até mesmo em um bar antigo nos anos 90, as chances de ter ouvido o estalar de dedos mais famoso do cinema ecoando entre as máquinas são altíssimas. Estamos falando da The Addams Family, a máquina de pinball que não apenas quebrou recordes, mas redefiniu o que o público esperava de um jogo de pratafuso. Lançada pela Bally (sob a divisão Midway) em 1992, ela se tornou o título mais vendido de todos os tempos, com mais de 20 mil unidades produzidas. Mas números, embora impressionantes, não contam a história toda. O que realmente importa é o porquê de ela ainda ser a “queridinha” de dez entre dez colecionadores.
O nascimento de um ícone da cultura pop
Para entender o sucesso da The Addams Family, precisamos voltar ao início da década de 90. O mercado de pinball estava em uma de suas fases mais criativas, a chamada “Era de Ouro” das máquinas dot matrix (DMD). O gênio por trás do design era ninguém menos que Pat Lawlor, que já vinha do sucesso estrondoso de FunHouse. Lawlor tinha uma habilidade única: ele não criava apenas um layout de rampas; ele criava um mundo onde a bola tinha uma narrativa.
A máquina foi baseada no filme de 1991, e o timing não poderia ter sido melhor. A estética gótica e bem-humorada da Família Addams casava perfeitamente com a proposta de um brinquedo mecânico cheio de surpresas. Mas o grande trunfo da Bally foi garantir as vozes originais de Raul Julia (Gomez) e Anjelica Huston (Morticia). Quando Gomez grita “It’s Showtime!” no início do Multiball, a imersão é instantânea. Não é apenas uma máquina de jogo; é uma extensão do filme que você podia tocar e controlar.
A estética de uma mansão mal-assombrada
Visualmente, a The Addams Family é um banquete para os olhos. O artista John Youssi fez um trabalho primoroso no playfield e no backglass. A peça central, claro, é a mansão situada no meio do campo de jogo. Cada janela da casa representa um modo de jogo ou um bônus diferente que o jogador deve desbloquear. Conforme você avança, as luzes da mansão vão se acendendo, criando um senso de progresso visual que era muito avançado para a época.
A trilha sonora, composta por Chris Granner, é uma aula de como usar o som para ditar o ritmo da partida. A adaptação do tema clássico de Vic Mizzy está lá, mas são os efeitos sonoros — o trovão, o riso do Gomez, o som da campainha — que mantêm a adrenalina alta. E não podemos esquecer do Thing (o Mãozinha). Ver uma mão mecânica de verdade sair de uma caixa, agarrar a sua bola e puxá-la para baixo do tabuleiro pela primeira vez é uma daquelas experiências que fritam o cérebro de qualquer entusiasta. Foi um dos primeiros “brinquedos” de pinball que realmente parecia mágica mecânica.
Gameplay: Onde a mágica acontece
O layout de Pat Lawlor é conhecido por ser desafiador e, ao mesmo tempo, extremamente recompensador. A The Addams Family utiliza um design de três flippers, sendo o superior esquerdo crucial para acertar o Side Ramp e coletar os bônus da mansão. O objetivo principal é “visitar” todos os cômodos da casa para habilitar o modo final, o lendário Tour the Mansion.
Mas o que realmente separa os amadores dos profissionais nesta máquina é lidar com The Power. Em certos momentos do jogo, imãs escondidos sob o playfield são ativados, simulando forças sobrenaturais que desviam a trajetória da bola de forma caótica. É frustrante? Às vezes. É brilhante? Com certeza. Isso tira a previsibilidade do jogo e força o jogador a ter reflexos muito mais rápidos.
As regras, escritas por Larry DeMar, são profundas o suficiente para manter um jogador experiente entretido por anos, mas simples o bastante para que um novato entenda que precisa “acertar a cadeira elétrica” (Electric Chair) ou o “pântano” (Swamp). O equilíbrio entre o risco de perder a bola e a recompensa de acumular milhões em bônus é o que gera o vício saudável que define um bom pinball.
Por que ela continua sendo a rainha?
Existem máquinas mais modernas hoje, com telas de LED 4K e regras infinitamente mais complexas, mas a The Addams Family possui algo que muitos designers modernos lutam para replicar: alma. Ela tem um ritmo de jogo perfeito. A transição entre os modos, as animações no display DMD e a integração física com o tema são impecáveis.
Outro ponto fundamental é a sua onipresença. Como foram produzidas muitas unidades, ela se tornou o padrão ouro de comparação. Se você sabe jogar Addams Family, você sabe jogar pinball. Ela ditou tendências de design que vemos até hoje, como o uso de imãs interativos e o conceito de “Wizard Mode” (o modo final) bem estruturado. Além disso, a versão Special Collectors Edition (a famosa Addams Gold), lançada posteriormente com detalhes dourados e software aprimorado, elevou o status da máquina a um item de luxo absoluto entre colecionadores.
Perguntas frequentes para quem quer entrar na família
A máquina é muito difícil de manter? Como qualquer máquina da era Williams/Bally, a manutenção exige atenção, especialmente no mecanismo do Thing e nos imãs do The Power, que podem queimar se não houver fusíveis adequados. No entanto, por ser a máquina mais vendida do mundo, encontrar peças de reposição e guias de reparo é muito mais fácil do que para títulos obscuros.
Quanto vale uma The Addams Family hoje? Devido à sua alta demanda e status icônico, os preços subiram drasticamente nos últimos anos. Mesmo sendo uma máquina comum em termos de produção, o valor de mercado é alto. Uma unidade em bom estado de conservação pode custar o preço de um carro popular, e as versões “Gold” são ainda mais inflacionadas.
Vale a pena ter uma em casa? Se você tiver orçamento, sim. Ela é o que chamamos de “título de permanência”. Muitas máquinas enjoam depois de alguns meses; a Addams Family parece ter sempre algo novo para oferecer, seja tentando bater o recorde de Mansion Rooms ou simplesmente pela satisfação de ouvir o Gomez gritar quando você acerta o jackpot.
Considerações Finais
A The Addams Family não é apenas a máquina mais vendida por uma jogada de marketing ou por causa de um filme famoso. Ela conquistou esse posto porque entregou um pacote completo: design inovador, jogabilidade viciante e um respeito profundo pelo material original. Ela é o exemplo perfeito de como o pinball pode ser uma forma de arte cinética.
Mesmo décadas depois, ela continua sendo a porta de entrada para novos jogadores e o troféu máximo para veteranos. No fim das contas, todos nós queremos, pelo menos uma vez por partida, ouvir o som da campainha, acertar o Vault e sentir que fazemos parte da família mais excêntrica do entretenimento. É, como diria o próprio Gomez, um triunfo!








