Se você entrar em qualquer salão de colecionador de elite ou visitar uma das grandes exposições de arcade pelo mundo, há uma silhueta que você vai reconhecer a quilômetros de distância. Não é apenas pelo tamanho do gabinete, mas por aquela aura roxa e azulada que emana do playfield, misturada a uma das trilhas sonoras mais contagiantes da história do entretenimento operado por moedas. Estamos falando da Monster Bash, lançada pela Williams em 1998.
Dizer que essa máquina é um “clássico” soa quase como um eufemismo. Para muitos, ela representa o ápice absoluto da “Era de Ouro” da Williams/Bally, um período onde o design de jogos atingiu uma maturidade técnica e artística que dificilmente foi replicada com a mesma alma nas décadas seguintes. Se a Medieval Madness é o rei dos pinballs e a Attack from Mars é o clássico cult absoluto, a Monster Bash é, sem dúvida, a alma da festa.
O Canto do Cisne da Williams
Para entender a Monster Bash, precisamos voltar a 1998. O mercado de pinball estava sofrendo uma pressão absurda dos consoles de videogame e da crise das salas de arcade. A Williams estava prestes a apostar todas as suas fichas no sistema Pinball 2000, o que significa que as máquinas de modelo tradicional (WPC-95) estavam chegando ao fim da linha.
Nesse cenário de “última dança”, o designer George Gomez — o mesmo gênio por trás de máquinas icônicas como Corvette e, mais tarde, Lord of the Rings da Stern — recebeu a missão de criar algo que fosse, acima de tudo, divertido. Ele não queria uma máquina punitiva ou excessivamente complexa como a Twilight Zone. O objetivo era criar um jogo que qualquer pessoa, do novato ao profissional, pudesse entender em trinta segundos, mas que demorasse centenas de horas para ser dominado.
O resultado foi uma colaboração fenomenal. Gomez se juntou a Lyman Sheats, um dos maiores programadores de regras da história (e um jogador de nível mundial), e ao artista Kevin O’Connor. Juntos, eles pegaram os monstros clássicos da Universal e, em vez de seguirem o caminho óbvio do terror gótico, decidiram transformá-los em uma banda de rock. Essa sacada mudou tudo.
Uma Festa Visual e Sonora no Playfield
A primeira coisa que te atinge ao jogar a Monster Bash é a qualidade da arte e das animações. O playfield é um desbunde de cores saturadas, com um uso inteligente de luzes que guiam o jogador sem poluir a visão. Cada monstro tem seu “canto” específico na mesa, e as esculturas são de uma qualidade que raramente vemos hoje em dia em edições padrão.
Temos o Frankenstein deitado em sua mesa cirúrgica bem no centro, o Drácula escondido em seu sarcófago à esquerda, a Noiva do Frankenstein à direita, o Lobisomem na rampa esquerda, a Criatura da Lagoa Negra no buraco central e a Múmia na rampa direita. É um layout clássico de “fan layout” (disposição em leque), que prioriza o flow (fluidez) — a bola raramente para, ela flui entre as rampas e órbitas com uma velocidade deliciosa.
Mas o que realmente dá vida à máquina são os callouts (as falas dos personagens) e a música. O trabalho de voz é impecável. O Drácula com seu sotaque carregado e cheio de marra, a Múmia reclamando de suas ataduras e o Frank resmungando enquanto tenta se levantar… tudo isso cria uma conexão emocional com o jogador. A trilha sonora, composta por Dan Forden (o famoso cara do “Toasty!” de Mortal Kombat), é composta por um surf-rock psicobilly que gruda na cabeça e te faz querer apertar os flippers no ritmo da música.
Gameplay: Formando a Banda de Monstros
A genialidade das regras de Lyman Sheats em Monster Bash reside na simplicidade da progressão. O seu objetivo principal é “reunir a banda”. Para isso, você precisa coletar os instrumentos de cada monstro e despertar cada um deles.
- Frankenstein: Acerte os alvos frontais para baixar a mesa cirúrgica e depois acerte a rampa para “dar o choque”. Quando ele acorda, o brinquedo fisicamente se levanta e começa a bater os braços no playfield. É um dos momentos mais cinéticos e satisfatórios do pinball.
- Múmia: Você precisa passar pelas órbitas para desenrolar a múmia. Quando o modo começa, você tem um Multiball rápido e frenético.
- Drácula: Acerte o sarcófago para fazer o conde sair. O boneco do Drácula desliza pelo playfield em um trilho, e você precisa acertá-lo enquanto ele se move. É um desafio de precisão excelente.
- Criatura da Lagoa Negra: O objetivo é encontrar a criatura no pântano (o buraco central). A animação no DMD (o painel de pontos) mostrando a criatura levando a mocinha é um clássico.
- Noiva do Frankenstein: Ela quer um instrumento e, para isso, você precisa acertar as rampas da direita para aumentar o “voltagem” do seu desejo.
- Lobisomem: Focado nas rampas da esquerda, representando a lua cheia e a transformação.
O que torna a Monster Bash especial é a possibilidade de stacking (empilhamento). Você não precisa jogar um modo de cada vez. Você pode começar o modo do Drácula, e enquanto tenta acertá-lo, abrir o sarcófago da Múmia e acordar o Frankenstein. Quando você tem dois ou três monstros ativos ao mesmo tempo, a mesa entra em um estado de caos controlado magnífico, com luzes piscando e múltiplos objetivos ativos.
O Ápice: Monsters of Rock
Se você conseguir coletar todos os seis instrumentos e despertar todos os seis monstros, você habilita o lendário wizard mode: o Monsters of Rock.
Neste momento, a máquina “pira”. Todos os bonecos se movem, a música muda para um tema épico de concerto de rock e todas as bolas entram em jogo. É um daqueles momentos em que você esquece os pontos e apenas aproveita o espetáculo pirotécnico que a Williams conseguiu espremer dentro de uma caixa de madeira. É difícil chegar lá? Sim, mas a jornada é tão justa que você nunca sente que a máquina “roubou” sua bola. A Monster Bash é conhecida por ter um nível de dificuldade muito bem balanceado, o que a torna a favorita absoluta de jogadores casuais e famílias.
Por que ela é um “Santo Graal” do Colecionismo?
Não é segredo para ninguém no meio: se você quer comprar uma Monster Bash original de 1998 hoje, prepare o bolso. Ela figura consistentemente no Top 5 de qualquer ranking de melhores máquinas de todos os tempos.
Existem alguns motivos para essa valorização absurda:
- Baixa manutenção (comparativa): Apesar de ter brinquedos complexos como o Frankenstein e o Drácula móvel, a engenharia da Williams na época era muito robusta. É uma máquina que aguenta o tranco.
- Universal Appeal: O tema dos monstros da Universal é atemporal. Não importa se você tem 8 ou 80 anos, você conhece esses personagens.
- O Código de Lyman Sheats: Existe um “Easter Egg” famoso chamado Lyman’s Lament, onde você pode jogar uma versão com callouts diferentes e uma música de jazz relaxante, apenas inserindo um código específico com os flippers. Isso mostra o carinho e o detalhismo colocados no projeto.
Em 2018, a Chicago Gaming Company lançou um remake oficial, com telas LED de alta definição e eletrônica moderna, o que ajudou a colocar a máquina nas mãos de uma nova geração de colecionadores. No entanto, para os puristas, o “clack-clack” dos solenoides originais de 98 ainda tem um charme insuperável.
Perguntas Frequentes (O que os colecionadores querem saber)
A Monster Bash é uma máquina fácil demais? Alguns jogadores de nível profissional argumentam que as regras são “lineares” e que os tiros são muito largos (permissivos). De fato, comparada a uma The Addams Family, ela é mais fácil de manter a bola viva. Mas é aí que mora o perigo: a pontuação alta exige que você jogue com estratégia, acumulando multiplicadores antes de entrar nos multiballs. Ela é “fácil” de jogar, mas difícil de “zerar” com maestria.
Quais são os pontos comuns de quebra? O mecanismo que levanta o Frankenstein pode sofrer desgaste nas engrenagens com o passar das décadas. Além disso, o boneco do Drácula que corre no trilho costuma acumular sujeira e precisar de ajustes no motor. No geral, porém, é uma mesa muito confiável se comparada a outras da mesma complexidade.
Vale a pena investir em uma original ou ir direto no Remake? Se você é um purista que valoriza o valor histórico e o toque original da Williams, a de 1998 é insubstituível. Se você quer paz de espírito, garantia, uma tela colorida maravilhosa e toppers interativos (na versão Special/Limited), o Remake da Chicago Gaming é uma das melhores reproduções já feitas no mercado.
O Veredito de um Entusiasta
A Monster Bash não é apenas uma máquina de pinball; ela é uma cápsula do tempo de uma era em que a criatividade humana superava as limitações tecnológicas. Ela pega ícones do cinema que deveriam ser assustadores e os humaniza através do rock n’ roll e do humor.
Cada partida parece uma celebração. Não há aquela frustração pesada de perder uma bola por um erro bobo, porque o jogo te convida a tentar de novo imediatamente. O layout é limpo, o feedback tátil é pesado e a satisfação de ver o Frankenstein se levantando pela milésima vez nunca perde a graça. Se você tiver a oportunidade de jogar uma — ou a sorte de ter uma no seu gameroom — saiba que você está diante de uma das obras-primas do design industrial e de entretenimento do século XX.
No fim das contas, a Monster Bash nos ensina que o pinball, antes de ser um esporte de reflexos ou um investimento financeiro, é sobre a alegria pura e barulhenta de bater em uma esfera de aço contra monstros de plástico. E nisso, ninguém ganha da banda mais monstruosa do rock.








