Se existe um divisor de águas no pinball moderno, um momento em que as máquinas deixaram de ser apenas brinquedos nostálgicos para se tornarem arenas de entretenimento de alta intensidade, esse momento tem nome: AC/DC. Lançada em 2012 pela Stern Pinball, essa máquina não foi apenas mais um título licenciado de banda de rock. Ela foi uma declaração de intenções. Em uma época em que muitos duvidavam da sobrevivência da indústria, a Stern entregou um projeto que transbordava energia, volume e uma profundidade de regras que ainda hoje, mais de uma década depois, serve como padrão ouro para o que um “Music Pin” deve ser.
Jogar uma AC/DC é como subir ao palco com Angus Young. Não há sutileza aqui. Desde o momento em que você pressiona o botão de início e os primeiros acordes de “Back in Black” ou “Thunderstruck” explodem pelos alto-falantes, a máquina te exige foco total. É um jogo agressivo, rápido e, acima de tudo, extremamente recompensador para quem se dedica a entender o que está acontecendo por trás de tantas luzes piscantes e do balanço do sino gigante no centro do campo.
O renascimento da Stern e o toque de mestre de Steve Ritchie
Para entender o impacto da AC/DC, precisamos olhar para o cenário de 2012. A Stern Pinball era, essencialmente, a única grande fabricante sobrevivente no mundo. O mercado estava morno, e os colecionadores buscavam algo que realmente justificasse o investimento em uma máquina nova. Foi então que Gary Stern trouxe de volta o “Rei do Fluxo”, o lendário designer Steve Ritchie.
Ritchie, o homem por trás de ícones como Terminator 2 e Star Trek: The Next Generation, trouxe sua assinatura de rampas velozes e tiros de longa distância para o universo dos australianos do rock. A colaboração com Lyman Sheats Jr., possivelmente o maior programador de regras da história do pinball, criou a tempestade perfeita. Eles não apenas colocaram músicas em uma máquina; eles criaram um sistema onde o ritmo da música dita a estratégia do jogador. É uma simbiose entre áudio e mecânica que poucos conseguiram replicar com tanto sucesso.
Estética do Rock: Canhões, Sinos e o Rosto do Angus
Visualmente, a AC/DC é uma explosão em tons de vermelho e preto. A arte de Dave Christensen — um veterano que trouxe aquele estilo clássico e detalhado dos anos 70 para o século XXI — é vibrante e carregada de referências à iconografia da banda. No centro do playfield, temos o icônico Hell’s Bell, um sino físico que oscila quando atingido pela bola, emitindo um som que reverbera em toda a sala. É o tipo de interação física que define o prazer do pinball.
Dependendo da versão — seja a Pro, a Premium ou a cobiçada Luci — a ambientação muda ligeiramente, mas a alma é a mesma. Nas versões Premium e LE, o jogo conta com um “mini-playfield” sob o tabuleiro principal, representando o “Inferno”, onde você joga com esferas menores para acumular bônus. Mas, honestamente, mesmo na versão Pro, que é mais limpa, o fluxo do jogo é tão bom que você não sente que está perdendo a essência. O canhão oscilante, que permite disparar a bola contra os alvos para o Fire! Jackpot, é uma das mecânicas mais satisfatórias já criadas pela Stern.
Gameplay: A Orquestra do Caos
O que torna a AC/DC especial não é apenas o tema, mas como os Song Modes funcionam. Ao contrário de outras máquinas onde os modos são sequenciais, aqui você escolhe sua música e cada uma altera drasticamente o valor dos tiros no playfield. Se você escolhe “TNT”, o foco são os “pop bumpers”. Se vai de “Highway to Hell”, as rampas se tornam o alvo principal.
O grande segredo para pontuações astronômicas reside no acúmulo dos bônus. Através das letras que formam A-C-D-C e dos combos de notas musicais, o jogador vai “carregando” o valor dos jackpots. Existe um risco constante: você pode coletar um bônus razoável agora ou continuar arriscando para multiplicá-lo por dez, sabendo que um “drain” (perder a bola) jogará todo o esforço no lixo. É pinball de alta voltagem, onde a ganância é sua melhor amiga e sua pior inimiga.
O nível de desafio é alto. A AC/DC é conhecida por ser uma máquina “punitiva”. As laterais (outlanes) são famintas e os tiros precisam ser precisos. Se você chutar a bola de qualquer jeito, ela voltará na mesma velocidade contra você. Mas é justamente essa dificuldade que cria o vício. Você quer bater aquele recorde, quer ouvir o sino tocar mais uma vez e quer, desesperadamente, chegar ao modo Encore, o ápice do jogo reservado apenas para os mestres.
O que dizem os colecionadores: Vale a pena?
Uma das críticas comuns que ouvimos sobre a AC/DC no início era sobre a “repetição” sonora para quem não é fã da banda. Mas a verdade é que, mesmo se você não tiver um pôster do Brian Johnson na parede, a engenharia do jogo te conquista. Comparada a máquinas como Metallica (outro sucesso da Stern da mesma época), a AC/DC tem um ritmo muito mais frenético. Enquanto Metallica é mais cadenciada e focada em completar itens, a criação de Ritchie é pura velocidade.
Para quem está pesquisando sobre a máquina hoje, a questão da manutenção é um ponto positivo. Por ser uma plataforma moderna da Stern Pinball, peças de reposição são abundantes. O sino e o canhão são os componentes que mais exigem atenção, pois sofrem muito impacto físico, mas nada que uma revisão periódica não resolva.
Em termos de valor, a AC/DC provou ser um excelente investimento. Ela mantém o preço de mercado lá no alto porque a demanda nunca cai. É uma máquina que agrada tanto o jogador casual, que só quer ouvir “You Shook Me All Night Long” enquanto bate nos botões, quanto o competidor profissional que passa horas estudando as tabelas de multiplicadores de Lyman Sheats.
Perguntas Frequentes no Universo AC/DC
Qual versão escolher: Pro ou Premium? Se o orçamento permitir, a Premium oferece o mini-playfield e o sino que se move, o que aumenta a imersão. Porém, muitos jogadores profissionais preferem a Pro pela simplicidade e pela ausência de interrupções no fluxo da bola.
A manutenção é complicada? Não. É uma máquina muito confiável. O segredo é manter as bobinas do canhão reguladas e os elásticos (rubbers) sempre novos para não perder a velocidade característica do jogo.
É um jogo bom para iniciantes? Sim e não. É fácil entender o que fazer, mas a velocidade pode assustar quem está começando. É uma máquina que ensina você a jogar melhor na marra.
Um Hino às Esferas de Aço
A AC/DC não é apenas uma máquina de pinball; é um monumento à cultura pop e à resiliência de uma indústria que se recusou a morrer. Ela captura o espírito rebelde do rock and roll e o traduz em cada batida mecânica e cada flash de LED. Quando você finalmente encaixa aquele tiro perfeito no canhão e ouve o estouro do jackpot sincronizado com o refrão da música, a sensação é de puro triunfo.
Ela ocupa um lugar de honra em qualquer “game room” porque tem personalidade. Ela não tenta ser polida ou silenciosa; ela quer ser notada. E, no final das contas, não é exatamente isso que todos buscamos quando puxamos o lançador e soltamos a bola de aço? Vida longa ao rock, e vida longa ao pinball.









